jusbrasil.com.br
17 de Maio de 2021

A política do “rouba, mas faz” precisa finalmente ser superada

Agora o pior são aqueles que roubam e não fazem mais nada!

José Herval Sampaio Júnior, Juiz de Direito
há 4 anos

Por Herval Sampaio e Joyce Morais

Nestas eleições municipais, não raras às vezes, presenciamos candidatos argumentando que “roubavam sim, mas faziam algo por sua cidade”, ou pior, que “roubavam, mas não pediam propina”. Parecer brincadeira isso, mas infelizmente não é, pelo contrário, acontece com muita frequência e alguns ainda têm a “cara de pau” de falar claramente, sem a menor cerimônia.

O bordão “rouba, mas faz” surgiu na política brasileira na década de 50 quando os cabos eleitorais do político Adhemar de Barros tentavam defendê-lo dos adversários que o acusavam de ser ladrão. Até hoje essa frase é repetida por milhares de pessoas para justificar o voto em candidatos fichas-suja, corruptos, desonestos ou descomprometidos com a res pública.

Este ano, o “Índice de Percepção da Corrupção” mediu os níveis de corrupção no setor público em 168 países. No ranking, o Brasil ocupa o 76º lugar, colocação pior que na edição anterior, talvez por conta dos casos recentes envolvendo a Petrobrás. Em meio a tantos escândalos de corrupção, “Mensalão”, “Petrolão”, “ “Lava Jato”, delações premiadas, condenações, instabilidade entre os poderes e pedidos de impeachment, instalou-se uma grave crise política no país.

Veja: Brasil Corrupção: a origem desse mal e quais as perspectivas?

Mas muita gente pergunta: o que a crise de governabilidade tem a ver com a corrupção? E nós respondemos: tudo! Nas democracias, a estabilidade no país se constrói com respeito entre os poderes e entre governantes e governados. O cidadão, precisa ter confiança nas ações de seus representantes. Quando o eleitor acredita que não há candidatos honestos, capazes de realizarem uma gestão proba e vota naquele que acha que “vai roubar menos”, ele está fortalecendo a corrupção e agravando a crise institucional que vivenciamos hoje.

Não podemos mais aceitar que um político ou qualquer autoridade cometa crimes e por estes não sejam punidos, mesmo que se tenha resultados concretos com sua ação ou omissão, pois um crime merece a imediata reprimenda social e quando esta não vem, temos a impunidade como mote para cometimentos de outros num círculo vicioso e pernicioso, em que a própria população inverte os valores.

Ruy Barbosa afirmou certa vez que "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.” Embora respeite esses versos e tê-los infelizmente como reais, não podemos nunca desanimar, nem ter vergonha da honestidade e a nossa luta é justamente para mudar a realidade neles descrita.

Devemos, sempre, combater todas as formas de corrupção e aqueles que lançam mão da coisa pública em interesse próprio devem sempre ser punidos, independentemente do resultado. Através das nossas ações, devemos exigir dos nossos representantes transparência, comprometimento, respeito, integridade e retidão, que se encontram presentes nos princípios de todo administrador público e quando se violam tais caracteres, a aceitação nunca pode prevalecer.

Essa aceitação, mesmo que tácita, é algo que precisa ser combatida e a realidade que precisamos mudar depende de uma postura de indignação com qualquer ato criminoso, pois só assim teremos a esperança de que tudo que estamos vendo hoje seja no futuro um passado para ficar somente na história e nunca mais prevalecendo como hodiernamente, de modo que as futuras gerações possam se orgulhar do passo dado e concretizado em posturas objetivas de não se resignar com atos criminosos, pois estes são e sempre serão errados, não podendo ser convalidados nunca.

Agora o pior de tudo é que estamos em outra fase também, a que rouba e não faz mais!

23 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)

O "Rouba mas faz" ainda está impregnado na mente do eleitorado brasileiro.
Votar no "menos pior", como se "ser menos pior" fosse algum título de honestidade.
O eleitor brasileiro ainda prefere votar em qualquer um, ou naquele que está à frente das pesquisas, do que procurar se informar ou ainda, ter a coragem de anular seu voto deixando clara a falta de uma opção que representasse seus anseios.
A propaganda política eleitoral é muito falha, mais confunde do que ajuda e assim, quem pode investir no bom sistema de marketing, tem maiores chances de se eleger e claro que ninguém investe sem pensar no retorno que terá. Nosso sistema quase que descarta a meritocracia e prioriza o investimento.
Cria-se então esse entendimento de que é melhor quem rouba, mas faz, do que aquele que apenas rouba. Uma lógica da desinformação que não sei se chamo de conformismo ou de pura ignorância. continuar lendo

Infelizmente é isso mesmo que acontece! continuar lendo

Um bom motivo para o voto passar a ser facultativo e ser possível a candidatura independente de filiação partidária.
Alguém honesto não se sentirá a vontade em nenhum partido e o cacique (ou cúpula) do partido jamais indicara à eleição majoritária (cargos dos poderes executivos) candidatos não dispostos a "dar um jeitinho" em favor do partido. continuar lendo

Belo texto.
Reforço aqui os comentários sempre retos e prudentes do Sr. José Roberto.
Outra coisa que talvez seja consequência do sistema eleitoral: Alguns candidatos honestos, não os do filme, têm votação insignificante, enquanto "os que roubam e não fazem" e "os que roubam mas fazem" são eleitos e estão alternando no poder há décadas no Brasil ou alguns grupos não eleitos dando suporte aos eleitos. É difícil de aceitar isso. A contrário sensu, como diriam os constitucionalista: O Poder emana do povo, mas não é exercido pelo povo (direta ou indiretamente), muito menos para o povo. Nosso principal artigo da Constituição é natimorto. continuar lendo

Mais uma exposição clara e verídica, parabéns! Reitero meus comentários dos quais surgiu debate noutro artigo sobre "gestão governamental": é preciso capacidade não apenas por direito mas principalmente aquela assimilada pelos valores, educação, cidadania e cultura. Quando o povo brasileiro passar se interessar o mínimo pela política real, não aquela que é vendida na mídia ou épocas de eleição, as atitudes e pensamentos passarão a ter maior sentido. Em um programa de TV fechada incomum pelo conteúdo e qualidade apresentados, a Min. Cármem Lúcia disse: "Como um cidadão pode requerer um direito se os próprios direitos desconhece?". A representação na proteção dos direitos coletivos já não se faz (se é que um dia foi) suficiente à eficácia desses individualmente. "Um por todos e todo por um." Falta a realidade do "todos por um"; esse "um por todos" resta, na maioria, improbo. continuar lendo

Mais um belíssimo texto.Á sociedade tem o dever cívico de ficar em alerta quando um vereador,deputado ou até mesmo os prefeitos quando vão inaugurar obras aparece como um 'Semi Deus"principalmente no quesito"Água" quando levadas as comunidades que não são reconhecida como povo.somente pra ilustrar, os cartazes das propagandas chamadas de publicidade estáticas, são os maiores veiculadores de grande parte dos políticos.Proponho o fim das publicidades e propaganda de todos os políticos e sim, uma reforma no sistema político que proponha um plano de governo de acordo com os recursos que obtiverem,Sem enganação,a sociedade acompanhará de perto, todas ás ações dos seus respectivos representantes. continuar lendo

No meu livro Abuso do Poder trago um caso nessa linha amigo e lancei agora a segunda edição! continuar lendo

Acredito que somente acompanhando ativamente todos os movimentos políticos com uma sociedade atenta esclarecida diuturnamente, haveria uma melhora no combate á corrupção.Estive em uma reunião com uma associação de moradores e pra minha surpresa, o presidente desta associação recebe benefícios de dois vereadores do interior do estado.Á ética tem que começar onde menos se espera. continuar lendo

Certeza, agora temos que ver que as vezes se faz necessário uma publicidade de caráter informativo e educacional! continuar lendo

Professor José Herval, ainda não li o livro sobre Abuso de Autoridade. O Dr. entende que agentes políticos (membros do MP e do Judiciário) devem ser excluídos das 10 medidas contra a corrupção no que tange ao abuso de poder/autoridade? continuar lendo

Antônio é Abuso do poder nas eleições ensaios e segue o link https://www.editorajuspodivm.com.br/abuso-de-poder-nas-eleicoes-triste-realidade-de-politicaagem-brasileira-2a-edicao-conforme-novo-cpc, Vc pode ter acesso ao sumário e uma parte da obra. continuar lendo