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26 de Maio de 2017

A "Merida" de minha filha

Até quando vamos continuar a cultura de que achado não é roubado?

José Herval Sampaio Júnior, Juiz de Direito
há 9 meses

A Merida de minha filha

É imperioso que se explique de início o título desse texto e a relação com as temáticas que sempre venho trazendo nesse espaço, pois se não fizermos, confesso que se eu o lesse em algum canto, não entenderia nada.

Portanto, vamos a esta primeira missão: os leitores devem ter percebido que há mais de 20 dias não escrevo e tal fato se deve à peculiar situação de que fiz uma viagem com a família para a Europa, mais precisamente à França e a Portugal, tendo comprado para a minha filha em Paris uma boneca da Disney que se chama “Merida”.

Tal boneca foi o xodó de minha filha durante toda a viagem e na volta para o Brasil, a mesma, por óbvio, a conduzia consigo durante o voo e a carregava normalmente, brincando com outros apetrechos, até que ao ir ao banheiro, tudo indica que deva ter deixado lá ou em qualquer outro lugar do avião.

E ao notar que não estava com a referida boneca, ficou logo aperreada, caindo no choro de uma criança que se apegou muito rápido a sua “Merida”, tendo o pai e a mãe tentado acalmá-la, mesmo sabendo que no avião, já estávamos em território brasileiro e aí que começa a via crucis de nossa indignação com a cultura de que achado não é roubado.

Em um primeiro momento tive a esperança que acontecesse como em duas oportunidades anteriores da viagem, em que esquecemos objetos em algum lugar e quando retornamos, em ambos os países citados, as coisas estavam rigorosamente no mesmo lugar. Isso nos fez lembrar de uma viagem anterior aos EUA, em que também nossa filha esqueceu um bolsinha da “Kliping” em um parque e ao chegarmos no hotel, sentindo a ausência da bolsa, voltamos ao parque e a bolsa já estava no departamento de achados e perdidos, esperando o dono ir buscá-la.

Os exemplos citados nos deram a esperança de que com a “Merida” pudesse ocorrer a mesma coisa. Ledo engano. Em que pese estarmos dentro de um avião de uma companhia portuguesa, a maioria esmagadora dos passageiros eram brasileiros e aqui a cultura é outra. Ou seja, acha-se algo e muitas vezes se esconde, justamente porque aqui “achado não é roubado”.

Será isso mesmo verdade?

Ouso dizer que não e me penitencio em público por ter encontrado algumas coisas um dia e imediatamente não ter levado a algum responsável para devolução imediata quando o dono o procurasse. Nos países mencionados, acontecesse justamente isso, pelo menos como regra geral.

E aqui no Brasil a regra é invertida, poucas pessoas agem assim e a cultura de que achado não é roubado reflete o nosso modo de querer ser esperto em tudo, como muito bem noticiou semana passada, o Ministro Barroso, em evento acadêmico.

Ora, o brasileiro realmente quer se dá bem em tudo, ao estilo “jeitinho brasileiro”.

Perdoem-me a franqueza, mas este jeitinho tem nos colocado na difícil situação que estamos passando hodiernamente.

Naquele dia chorei copiosamente por dois motivos. Primeiro, porque vi minha filha chorando muito e andando desesperada dentro do avião, procurando a sua “Merida” e saindo perguntando, dentro de sua inocência, inclusive também compartilhada pelos tripulantes do voo, aos quais, sendo portugueses e dentro de sua cultura diferente, ainda nos diziam, que alguém ia achar e entregar até o fim do voo e minha filha chegou a acreditar, pois ao final, ainda ficamos esperando todos os passageiros saírem para quem sabe a boneca ser devolvida.

Entretanto, sabíamos, no fundo, que para isso acontecer teria que ser um milagre, pois eu mesmo lembrei aos tripulantes que já estávamos no Brasil e que aqui a coisa é diferente, quando se acha algum objeto, não se devolve, pois repetimos “achado não é roubado”.

E justamente aí o segundo motivo de nosso choro, que se repete praticamente todos os dias, dentro de nossa luta contra a corrupção, nos lembramos que o nosso povo é assim: quer se dá bem em tudo e não é por outro motivo, que temos os políticos corruptos com tanta intensidade, porque somos corruptos por natureza.

E aí sinceramente, fiquei pensando e até cheguei a externar para os tripulantes que ficaram tristes pelo choro de minha filha, que de tanto chorar, acabou adormecendo e eu chorando mais ainda, enunciando o Brasil esculhambado.

Bastou nos depararmos com o nosso povo para que coisas perdidas não fossem mais entregues.

Nesse momento pergunto: será que tal fato possui relação direta com a nossa classe política corrupta?

Claro que tem!

Quanto a isso não tenho a menor dúvida! Por mais que no fundo tenha pessoalmente esperança de que as coisas possam melhorar a cada eleição, como agora mesmo luto para tal, a verdadeira mudança só vai acontecer quando nós mesmos mudarmos, e aí, se faz imperiosa uma revolução cultural, com educação cívica para as nossas crianças e jovens, já que a nossa geração parece estar perdida, daí o nosso choro diário.

É muito triste ver que os nossos políticos são o reflexo de nós mesmos. Como podemos criticar os políticos que desviam dinheiro público, se nós cometemos normalmente pequenas infrações diariamente, como a aqui relatada?

Como acreditar em um país em que os seus cidadãos, regra geral, só votam em algum candidato se receberem algo em troca?

Ora, se o político aqui já corrompe para adquirir o mandato, contando com o auxílio do povo em tal empreitada, quando do exercício do cargo, irá também corromper. É como tenho dito, um círculo vicioso e pernicioso. Alguém tem esperança de interromper esse trajeto sem educação e conscientização de nossos próprios males?

Eu não tenho e a nossa esperança, aqui citada, é realmente esperança de quem talvez seja otimista por natureza, já que racionalmente, continuaremos ainda elegendo os nossos políticos a nossa semelhança.

Somente quando houver uma modificação no agir de cada cidadão na sociedade, abandonando velhos vícios, deixando de lado a corrupção individual em pequenos atos, é que teremos políticos que espelharão o nosso novo modelo.

Daí porque todas as outras alternativas são paliativas, não sendo plausível acreditar em mudança aqui no Brasil dentro dessa cultura de querer se dar bem em tudo, pois mesmo quando se acha uma boneca de uma criança, vendo-a chorar e mesmo assim, se diz que achado não é roubado.

Achado e não devolvido a quem de direito é ilícito também.

Finalizo esse pequeno texto ainda com a esperança que nos move todo dia como cidadão indignado com a corrupção, em especial a eleitoral, de que as nossas crianças e jovens podem mudar essa triste realidade. Para tanto, devemos educá-las nessa linha cívica, e assim, quem sabe, as mesmas possam constranger os seus pais ao agir correto e coerente. Com esse intuito, nos orgulhamos de manter um projeto social intitulado Cidadania na Escola, a qual levamos para os estudantes de um modo geral, lições básicas de cidadania, democracia, eleições e corrupção.

E se não educarmos os nossos filhos que achado não é roubado e que, por exemplo, ficar com a boneca de uma outra criança, só porque foi achada, é normal.

É muito duro finalizar esse texto com a frase a seguir, contudo mesmo mais uma vez chorando, é a mais pura verdade: a criança que hoje estiver brincando com a “Merida” de minha filha, infelizmente representa a triste cultura de um povo que merece os políticos que têm.

José Herval Sampaio Júnior, Juiz de Direito
um cidadão indignado com a corrupção
Mestre e Doutorando em Direito Constitucional, Especialista em Processo Civil e Penal, Professor da UERN, ESMARN, Coordenador Acadêmico do Curso de Especialização de Direitos Humanos da UERN. Autor de várias obras jurídicas, Juiz de Direito e ex-Juiz Eleitoral.
Disponível em: http://joseherval.jusbrasil.com.br/artigos/373356161/a-merida-de-minha-filha

11 Comentários

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Infelizmente, a mais pura verdade. Uma cultura que nos meus 66 anos de vida não vi mudar um só milímetro. E ainda existe um agravante: Não confiamos que deixando o objeto encontrado aos cuidados de uma pessoa responsável pela sua devolução, esta venha a acontecer, ou seja, sequer confiamos nas instituições. É o alastramento da mesma cultura quando nos diz que aquilo que fazemos de errado, outros também poderão faze-lo.
Mas não funciona exatamente assim, eu mesmo já recuperei objetos perdidos nos setores destinados a este fim.
Mais recentemente, minha esposa deixou no banheiro de um shopping as chaves e o controle remoto do carro, sobre uma pia. Não as encontrou, não foram devolvidas. Aí entra outra questão: Que valor teriam para quem as encontrou? Por que as levou, já que não serviriam a nada? Se não quisesse ter o trabalho de entrega-las ao setor de achados e perdidos, porque simplesmente não a deixou onde estavam?
Para que uma cultura seja modificada com o tempo, é necessário que cada vez mais pessoas espalhem essa cultura. Talvez devêssemos voltar aos tempos da "educação moral e cívica" nas escolas. continuar lendo

É essa educação que defendo urgentemente que começemos pra ontem! continuar lendo

Excelente artigo!!! continuar lendo